Entrevista com Eliane Lorenzoni

14 de julho de 2016

Março nos convida a refletir sobre a relação entre as mulheres
e o mundo da política, no qual suas demandas têm a capacidade de se tornarem leis e decretos. No mês do Dia Internacional da Mulher, a Revista Nossa entrevista a ex-prefeita de Marechal Floriano, a advogada Eliane Paes Lorenzoni.

Eliane Paes Lorenzoni, natural de Vitória, radicada em Marechal Floriano há 31 anos, casada com o Deputado Estadual Cacau Lorenzoni, tem dois filhos, Karina e Bruno. Advogada, especialista em Direito Público e em Direito Processual Civil, pela Faculdade de Direito de Vitória
(FDV). Foi Procuradora do Município de Vila Velha -ES – Serventuária do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo (TJES) – Procuradora do Município de Marechal Floriano-ES – Professora Universitária – Prefeita Municipal
de Marechal Floriano – ES 2009/2012. Atualmente é Diretora Jurídica do Instituto Estadual de Proteção e
Defesa do Consumidor – (PROCON-ES).

_MG_4640-capaEm entrevista concedida à revista Nossa, Eliane falou sobre seu engajamento em questões femininas como participação política, serviços públicos e papel social da mulher.

O que sentiu ao ser convidada para representar a mulher florianense na capa da Revista Nossa do mês de março?
Sinto-me muito honrada. Representar as mulheres florianenses no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher é uma grande responsabilidade. São mães, professoras, trabalhadoras rurais, profissionais liberais, empresárias, entre outras. Mulheres que lutam diariamente, muitas vezes em dupla jornada de trabalho, conciliando os afazeres domésticos com a educação dos filhos e a sua própria vida pessoal. São mulheres que sonham com melhores perspectivas e têm esperança de um futuro melhor, para si e para suas famílias.

Como a senhora vê a luta feminina pelo respeito e pela igualdade social ao longo da civilização humana? Para nós, hoje, é natural saber que as mulheres votam, têm média de escolaridade superior aos homens, estão amplamente inseridas no mercado de trabalho, participam decisivamente da política, presidem empresas e governam países. Mas nem sempre foi assim.
A conquista pelo respeito ao ser humano do gênero feminino (comumente denominado igualdade de direitos) foi árdua, com marcos de violência pública, como o incêndio na fábrica de tecidos em Nova York em 1857, e de violência privada, como a história da brasileira Maria da Penha Fernandes.  Falar em direitos para a mulher é falar em Direitos Humanos, que são direitos natos, inerentes a todos desde o nascimento até a morte. É nesse espaço de respeito à dignidade da pessoa humana que se encontra o Direito da Mulher.

Como considera a situação da mulher na sociedade de hoje?
Como todo movimento social, o feminismo passou por várias etapas. Inicialmente era a luta por igualdade de oportunidade e condições. A Revolução Industrial incorporou o trabalho da mulher nas fábricas, mas não havia férias, licença maternidade, nem creches para deixar seus filhos. As operárias davam à luz nas máquinas de fiar das fábricas de tecidos, e ali mesmo amamentavam seus filhos. Interessante que a primeira reivindicação feminina não foi pela igualdade no salário, mas pela igualdade na jornada de trabalho.

NO DIA 08 DE MARÇO DE 1857, AS OPERÁRIAS DE UMA FÁBRICA DE NOVA YORK ENTRARAM EM GREVE PARA REIVINDICAR A REDUÇÃO DE UMA CARGA DE 16 HORAS DIÁRIAS PARA 10 HORAS.

Essas operárias, que recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica e, pouco depois, foi provocado um incêndio. 130 delas morreram queimadas.  Em um segundo momento, em meados do século XX, a luta feminina se concentrou na oposição à opressão machista. Ficou conhecida como feminismo radical. É importante lembrar que as mulheres já trabalhavam fora, votavam, etc, mas ainda havia muita discriminação.
Um exemplo era a seleção de aeromoças, que deveriam ser moças lindas, bem-educadas e muito jovens. Quando completavam 33 anos de idade, recebiam da empresa um buquê de flores de agradecimento pelos serviços prestados e eram demitidas. A partir de 1980, as mulheres reivindicavam uma revalorização da experiência feminina, ligada à maternidade e a aspectos biológicos característicos das mulheres, enfatizando a diferença entre os sexos. Atualmente a demanda é por uma noção de cidadania mais abrangente, ligada aos direitos democráticos e à prestação de serviços públicos.

eliane-lorenzoni-01A senhora se considera uma feminista? Eu me considero uma defensora da vida em plenitude, onde é imprescindível o respeito aos Direitos Humanos de todas as pessoas, independente do gênero, etnia, credo, cor ou nacionalidade. A luta das mulheres pela igualdade de direitos nasce pela afirmação das diferenças. Isso cria uma dualidade (igualdade de diretos mais diferenças biológicas) que acompanha toda a trajetória do feminismo e fundamenta a identidade da mulher, o sujeito feminino como pessoa de direito, como qualquer outro ser humano.
De que maneira a senhora participa e contribui para as conquistas femininas? A vida cristã não aceita nem se acomoda no mundo em que vivemos.
COMO CRISTÃ, ME SINTO IMPELIDA A FAZER A DIFERENÇA POR ONDE PASSO, EXERCENDO SOBRE O MUNDO UMA INFLUÊNCIA TRANSFORMADORA.
Assim, me empenho para que meu trabalho realize as mudanças sociais necessárias, que promovem a dignidade da pessoa humana, a justiça e a paz social.  Tenho consciência da responsabilidade que tenho diante de Deus, e diante do povo de minha cidade. Busco seguir uma ética pautada nas verdades absolutas da Bíblia Sagrada, promovendo também os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.

Como a senhora vê a participação da mulher na política? Segundo o Papa Francisco, a política é a forma mais plena de se exercer a caridade. Pensar no papel social desempenhado pelas mulheres na sociedade brasileira (mais especificamente sob a ótica da política) é sempre um exercício interessante, principalmente numa sociedade como a nossa, onde o homem sempre ocupou o espaço público e a mulher, o privado. Espaço restrito aos homens, mas continua dominada por eles. Mesmo que hoje tenhamos uma mulher na presidência do Brasil, a participação feminina na política ainda é muito tímida.   Com sua jornada (muitas vezes tripla) de trabalhadora, mãe e dona de casa, a mulher lida de perto com todas as questões sociais brasileiras. Educação dos filhos, o orçamento para as compras do mês, os juros, a saúde, a preocupação com a violência, com o desemprego próprio, do marido, do filho, do irmão. Com sensibilidade e empenho, essas mulheres vão encontrando soluções para dar conta da vida. É preciso fazer representar esse olhar feminino do mundo. É preciso fazer valer a experiência feminina de gestão dos problemas cotidianos.

Como prefeita, a senhora utilizou essa experiência feminina de gestão dos problemas cotidianos na administração municipal? Governar é fazer escolhas. Sempre pedi a Deus que me desse sabedoria para fazer as escolhas certas.
NA PREFEITURA, COMO NA CASA DA GENTE, O ORÇAMENTO NÃO DÁ PARA FAZER TUDO QUE QUEREMOS.  POR EXEMPLO, SE TEMOS CINCO NECESSIDADES E O DINHEIRO SÓ É SUFICIENTE PARA RESOLVER DUAS OU TRÊS, CABE AO PREFEITO, DENTRO DE UMA ESCALA DE PRIORIDADES LEGALMENTE PERMITIDA, ESCOLHER QUE CAMINHO SEGUIR. É NESSE PONTO QUE A EXPERIÊNCIA FEMININA FAZ DIFERENÇA

As escolhas governamentais são voltadas para o bem-estar da família como um todo. Por exemplo, entre escolher a ampliação de vagas nas escolas e creches ou a realização
dos campeonatos de futebol, como mulher escolhi a primeira opção.

E a situação da mulher florianense hoje?  Qual a sua análise? Observo que coisas muito importantes deixaram de ser feitas em Marechal Floriano, no sentido de manter as conquistas realizadas. Especialmente na área de saúde da mulher.  Um retrocesso foi o encerramento da policlínica. O novo prédio foi construído especialmente para receber os aparelhos de raio X, mamografia e ultrassonografia, com toda a infraestrutura necessária para seu funcionamento.
A intenção era adquirir os equipamentos e implantar um centro de radiologia que iria atender a população de Marechal Floriano e das cidades vizinhas. Além de evitar o deslocamento dos pacientes para outros centros, traria um volume de pessoas que diariamente estariam transitando por aqui.

Na sua opinião, o que deveria ser melhorado nas políticas públicas para a mulher?  É preciso facilitar o acesso à realização dos exames. É importante que o poder público continue promovendo as campanhas informativas (como o Outubro Rosa, que alerta para a importância de se fazer a mamografia anualmente), mas acredito que tão importante quanto a informação é promover acessibilidade aos meios de diagnóstico preventivo. Esses exames, como o preventivo para câncer de mama e de colo de útero, por si só, já são desconfortáveis para a mulher.  Além do desconforto, ela ainda tem que faltar ao trabalho, enfrentar obstáculos no agendamento, lidar com as dificuldades de deslocamento para a realização da mamografia fora da cidade e aguardar os resultados para depois retornar ao médico para fechar o diagnóstico. Essa maratona acaba sendo um desestímulo para que a mulher faça os exames na frequência recomendada pelo INCA – Instituto Nacional do Câncer. A verdade é que a grande maioria das mulheres acaba adiando esse compromisso anual consigo mesma, o que, em alguns casos, gera consequências irreversíveis para ela e seus familiares.

A senhora é fã de alguma mulher em especial? Sou fã da mulher comum, trabalhadora, dona de casa e mãe… essas são as heroínas anônimas que contribuem para a formação de um mundo melhor. No decorrer da História, muitas mulheres se destacaram na afirmação dos Direitos Humanos.
Tenho uma admiração especial pelas brasileiras Princesa Leopoldina, Irmã Dulce e Dra. Zilda Arns.

Que mensagem a senhora deixa para as mulheres nesse mês do dia Internacional da Mulher? A presença das mulheres no espaço público tem quebrado preconceitos e promovido profundas mudanças nas relações domésticas e sociais.  Mas, quando se trata da igualdade de direitos entre homens e mulheres, ainda há muito a avançar.

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